O site Quatete publicou poemas da Dra. Márcia Tiagni com muito respeito e carinho.

4 poemas de Marcia Tigani

 

 Tordesilhas

 

Minha dor adormece na areia

Em praias de utopias.

 

Minha dança é uma sardana,

Num mundo desigual

 

Terra e homens são ilhas

Segredados por cores

 

Meridianos separam

E demarcam territórios

 

Mas a minha língua é vária

E encontra seu tempo no verso

 

E o verso subverte a latitude

Para expressar em voz a dor universal.

 


Diagrama

 

Não é a morte o que me assusta

Mas o confisco diário da poesia

 

O que me sangra,

São  epístolas imundas

A converter  gentios

A marcar fendas enormes

Na  ausência de encéfalo

E  esses olhares estéreis

para o nada, para o nada…

Confesso minha solidão

Como  um estilete

Que  marca a epiderme

Na turba embriagada

 

Confesso  o meu cansaço.

Impregnado de ódio

O amor que jaz assassinado

Sem cataplasmas

Que aplaquem as  dores

 

Há em mim um diedro:

Em uma das faces

insurgem-se  ideias

Que inflamam  veias

Num   certo  diagrama

Onde  se inscreve a flama

 


Ponteio

 

Não me chamo Flor:

As sépalas se foram.

Restaram espinhos

 

Dedilho semitons

Que serpenteiam

O prefácio do dia

 

O epitáfio da noite

Sempre exangues

 

Tordilhos no pasto

Ruminam manhãs

Plasmadas de utopias

Sob acordes de viola:

Ponteio!

 

Engulo com raiva

Quase selvagem

O moralista, a atriz

A beata: todos sinistros

F-A-S-C-I-S-T-A-S!

 

Diviso entre eles

O que fagocita

O que mata negros

O que engole o soma:

Sodoma!

 

Fiz um juramento

De ser mansa

Mas me tornei pagã

Deus? Há muito

Já o matei em mim

 

Ponteio

prantos, dores

 

Rastros, veios

Marcados sob pele

Cravados sobre carne

 

No alto, bem no alto

Na ponta do pau-de-arara

Espera- me a coragem

Irmã do ódio

Mãe da morte

 

Não sobrará Messias algum

Para contar a história

 


Kali

 

Há um tempo congelado

Onde horas não passam

 

Elas escorrem lentamente

Como mar gelatinoso

 

Minha fé adere à massa amorfa

Que não me é suporte nem esteio

 

Tento avançar ponteiros

Na minha abissal ansiedade

 

Mas as horas me escapam

E o tempo me fez ilha

 

Habito o continente

De um relógio cruel

 

Sou cativa de Chronos

E das Ilhas que inventei

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